A CLASSE ACIMA DA LUTA
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UMA NOVA DIALÉTICA DO DESENVOLVIMENTO


  

1- INTRODUÇÃO
 

A natureza, essa "classe" sempre presente, mas esquecida, está acima da luta de classes.

Desde que o mundo, mundo, quem tem o poder se apropria dos bens, do saber, das artes, do lazer e faz com que outras pessoas trabalhem. No início foram os escravos que forneceram a força de trabalho. A defesa consciente do homem trabalhador e as dialéticas do desenvolvimento, usadas por capitalistas e socialistas para dar suporte aos interesses das classes do Capital e do Trabalho, não mudarão o desequilíbrio dos poderes.

Para os dois lutadores, capitalismo e socialismo, à primeira vista, parece que a natureza nada tem a ver com a luta de classes. Mas chegou o tempo em que se reconheceu o palco da luta como participante ativo. Então, por que não considerar a natureza? É a terceira classe! É a classe acima da luta. Tomar consciência da ação da natureza é desmistificar a luta de classes e olhar para um mundo de paz e para um planeta azul, como a Terra aparece no espaço.

O Ecossenso(*) é a classe do planeta Terra, com seu ar, seu mar, sua água, as minas, as paisagens, as cores, o clima, os perfumes, a biota, os ecossistemas, a humanidade, mas também as civilizações, a biogenética, a mente, a fé. "Ecos" é o "habitat" e "senso" é a faculdade de apreciar: implica a sensibilidade, o ritmo, o tempo, o juízo. Seus representantes são os orixás, os sacerdotes, os príncipes, os reis, os juízes - seu combatente é o ecossensato.

O Capital é o dinheiro sob todas as formas, a tecnologia, a indústria, os bens móveis e imóveis, infra-estruturas, commodities acumuladas, o saber, as bibliotecas, as mídias, etc. Seu propagador é o economista. Seu representante é o sábio, o professor, o dono, o conservador, o acumulador de capital, de diplomas e de certificados.

Já o Trabalho significa atividade física e intelectual humana, criação artística, aplicações da inteligência, ações para realização pessoal, educação social, luta contra as doenças, procura dos prazeres, comunicação das informações, treinamentos no sentido geral, experiências vividas. Seus defensores são os sindicalistas, os artistas, os comunicadores e os sociólogos. Seu representante é o fulano, o povo, a massa humana em trânsito, no tempo.

A tentativa dos capitalismos industriais de se tornarem independentes da produção da natureza e tirar proveito da máquina nuclear, as contradições dos países socialistas, que basearam seu sistema na eletrificação e nos programas de capital intensivo, produzindo um trabalho "morto" que se somou ao trabalho "vivo" do homem, a destruição da floresta nos países subdesenvolvidos, na tentativa de sustentar uma economia deficitária, tudo isso ilustra os resultados obtidos a partir de dialéticas primárias e parciais - ou seja, o socialismo e o capitalismo.

As maiores crises são a crise de juízo, da estética - no sentido grego - de percepção dos fenômenos concatenadores da natureza e a crise do tempo, da utilização do período da vida, dos ritmos.

Lembra-se o francês Bernardin de Saint Pierre que diz: "As máquinas poderão falar e entender, mas ficará a consciência (o senso, sensibilidade, estética) que permitirá rir depois de uma piada!".

As grandes campanhas que hoje presenciamos e que nos atingem através dos meios de comunicação, pregando a preservação da natureza e a não-agressão ao meio ambiente, passaram a ser uma nova moda demagógica, "para inglês ver", sem nenhuma sustentação ideológica. Defender a natureza, nos termos em que a mídia dos países desenvolvidos o faz hoje em dia, é como defender o princípio da propriedade privada, quando se é rico e se tem à disposição a polícia e o exército, ou então como defender nosso aumento de salário se trabalhamos em uma estatal e temos segurança absoluta de emprego e aposentadoria. Do mesmo modo, o Primeiro Mundo quer preservar a natureza no Terceiro Mundo, mas não abre mão de seu estilo de vida arrogante e perdulário...

A visão ecossensitiva é muito mais ampla que a defesa do mico-leão ou da mata atlântica. Ela ocorre através de diversas formas, exigindo vocação para avaliar a oferta e a produção aproveitável da natureza, passando pelo questionamento da exploração ou de aproveitamento da renda "diferencial", além de repensar a crítica da valorização equivocada da qualidade de vida, a paz e a felicidade.

A "bonita, saudosa e estimulante" luta de classes não poderá estar hipócrita ou egoisticamente restrita ao Capital e ao Trabalho, confrontando sindicalistas e operários de um lado e capitalistas e industriais de outro: há que se considerar que a "cunha telúrica", representada pelos países explorados do sul, os nichos de miséria das grandes cidades, os admiradores de vida selvagem existente nas florestas, os feridos em acidentes nucleares e os filhos dos mortos da guerra desnecessária do petróleo, rachou o "diálogo" cúmplice entre Capital e Trabalho e obrigou cada um de nós a entender a problemática dos ecossistemas, onde rios, animais, plantas e homens estão no centro. Mas, como o homem já é totalmente dependente do dinheiro, a forma mais sensível de penetração da cunha se materializou nos chamados "choques" do preço do petróleo. Já outras formas começam a sensibilizar a humanidade: Chernobyl, efeito estufa, buraco de ozônio, AIDS, drogas e cólera, miséria, chuva ácida.

Ser ecossensato não é ser contra o desenvolvimento, contra as máquinas e a exploração da natureza, nem querer voltar à civilização do índio, mas, ao contrário, é ser a favor do desenvolvimento integrado aos ecossistemas, a favor dos empreendimentos racionais, convergentes sensatos e da exploração global da natureza. Os conceitos de desenvolvimento com crescimento "zero" ou "sustentável" são conceitos disfarçados da exploração desequilibrada da natureza, a serem usados somente por países não-industrializados, atrasados. Tais conceitos, se empregados pelos países industrializados, se traduziriam por uma regressão - isto é, por exemplo, uma redução de consumo de energia de 90% e nenhum governo do Primeiro Mundo teria capacidade de assumir essa política. Só por ter iniciado uma política de estabilização, Bush arriscou de não ser reeleito, o que representaria uma perda política maior que os benefícios da guerra pré-fabricada do Kuwait.

Por tudo isso, foi preferível trazer para o Rio de Janeiro a conferência para a defesa do meio ambiente, levando assim o discurso a um lugar neutro onde os "amigos da luta de classe" não poderão ser comprometidos.

Mas o Rio de Janeiro e o Brasil representam muito mais que um centro paradisíaco de conferência. Serão o centro de revisão do desenvolvimento desigual para propor, por que não, uma nova dialética de desenvolvimento sinérgico entre o capital, o trabalho e o Ecossenso.


(*) O termo Ecossenso, apesar da etimologia mista (grego e latim), é mais expressivo que Ecosestética que é o termo mais técnico e preciso. “Aisthetica” tem em grego o significado amplo da apreciação do belo, bom, etc.