4- A TRÍADE

  

CAPITAL - TRABALHO - ECOSSENSO
 

Os problemas energéticos entraram no noticiário internacional a partir dos choques dos preços do petróleo e da controvérsia sobre a energia nuclear. Mas ao mesmo tempo suscitaram uma nova forma de encarar os recursos naturais e os impactos ambientais. Até então, poucos cientistas se haviam interessado em considerar os fatores ambientais na análise dos sistemas estudados. A conseqüência imediata dessa conscientização foi motivar pesquisas e trabalhos acadêmicos para estabelecer teorias e fórmulas e resolver os problemas novos.

Todos os desenvolvimentos históricos modernos, chamados revoluções tecnológicas ou industriais, foram analisados sobre a base da elasticidade(*), energia/produto interno bruto, sem considerar a elasticidade - preço da energia/produto - devido à hipótese dos recursos naturais infinitos e da gratuidade das energias primárias.

A partir de uma nova visão da disponibilidade das energias, conceberam-se logicamente modelos para projetar a demanda de energia em diversos cenários, e os impactos de uma política energética. Assim, nasceram os modelos sobre as relações entre o Capital, o Trabalho, a energia e as matérias-prima.


Os fundamentos da economia moderna, ou seja, da valorização das atividades do homem, são a remuneração do capital (custo do investimento, taxa de juros, taxa de atualização, menos impostos sobre o capital), a remuneração do trabalho (produtividade, tempo e efetivo, menos impostos sobre os salários) e agora, a remuneração da energia e matérias-primas.

Seja como for, todas as análises consideram as correlações entre Capital, Trabalho, energia e as leis de substitução. Por exemplo, a melhoria do isolamento dos muros de uma casa (capital) reduzirá o consumo de energia. A pré-fabricação e robotização aumenta o custo de investimento (capital) mas diminui a participação do trabalho.

Por isso foram desenvolvidos modelos de demanda de energia onde o PIB não é mais considerado, e sim outros critérios nas funções K.L.E.M., e as interferências entre o Capital (K), o Trabalho (L), a energia (E) e as matérias-primas (M). Depois, dentro do bloco energético, foram desenvolvidos modelos de substituição interenergéticos, de demanda de energia com equipamentos ainda em operação e com equipamentos de tecnologia nova. Foi a tentativa de substituição feita no Brasil para implantar o Proálcool.

Todos os trabalhos de modelização e de econometria, de qualidades acadêmicas excepcionais e de grande avanço conceitual na análise dos fatores, comportam, entretanto, uma simplificação: a formulação matemática não traduz a realidade da participação do Ecossenso e da geopolítica, e não adiantarão os métodos Translog, de Elasticidade de Substituição Constante (CES) ou de aplicação das equações Cobb-Douglas; a base da problemática é sempre a mesma: quanto se deverá pagar pela renda da jazida, ou pela renda de antecipação do escoamento da jazida? Quanto se deverá pagar pela apropriação de um produto da natureza, e a quem pagar?

Assim sendo, começa-se a pensar em reestruturar a educação com uma nova matéria: a gestão da energia. O Prof. M. Perrut, do Instituto Nacional Politécnico de Lorraine, em Nancy, França, constatou que "os programas de educação técnica (na França) deverão ser profundamente reestruturados, visando a necessária conscientização de todos os alunos do primeiro e segundo graus. A adaptação das formações profissionais e tecnológicas é uma necessidade urgente que deverá ser sustentada pelas empresas. Essa adaptação será difícil devido ao peso das estruturas, do conservadorismo e da ausência quase total de monitores ou professores".

Estamos ainda longe da gestão do meio ambiente! A energia é somente um dos fatores.


POLÍTICA ECONÔMICA SEM POLÍTICA ENERGÉTICA NEM SOCIAL
No Brasil, e na quase-totalidade dos países em desenvolvimento, o problema é mais agudo. Não existe uma política energética, nem ambiental, e a "gestão" é coordenada por tecnoburocratas que adaptam medidas econômicas e regulamentares às conjecturas políticas e fisiológicas. Por isso o país anda de plano em plano em curtíssimo prazo, com preços congelados e defasados, com programas nucleares para satisfazer indicações externas, programas hidroelétricos para competir com a obra grandiosa de Brasília, do Presidente Kubitschek, programas do álcool para fortalecer o mercado de carros de passageiros, etc. Além disso, os responsáveis pelo planejamento energético, recém-formados nas universidades estrangeiras, constroem projeções e matrizes energéticas baseadas em conceitos arcaicos da elasticidade energia/PIB, conservando a repartição antiga do balanço energético: a energia hidroelétrica cresceu 6% a.a. e deverá crescer em função de sua participação e de sua taxa histórica!(**) Não passa na mente desses recém-formados que uma energia poderá substituir outra em função dos custos relativos, da disponibilidade de recursos financeiros e dos impactos ambientais induzidos.

Nesse ponto, podemos constatar que ninguém no mundo conseguiu projetar a demanda energética de uma sociedade com os modelos propostos. Porque novamente não é a energia o terceiro lado do triângulo, e sim o Ecossenso, com as energias fósseis e renováveis, as matérias-primas, mas também com suas florestas, sua proteção natural, graças ao efeito estufa, seus mares, sua fauna, ou seja, os ecossistemas.

A tríade Capital-Trabalho-Ecossenso merece uma nova dialética que é superior às dialéticas capitalista e socialista. Ela transcende e resolve a problemática de desenvolvimento.

A melhor representação gráfica que poderia ser feita da importância dos ecossistemas na crise do mundo, para sustentar uma dialética simplificada, seria um triângulo.

No início, o mundo pré-industrial teve somente uma escala de avaliação linear. Importava a escala das condições sociais: trabalho, alimentação, lazer, habitação. Esse mundo seguiu o mundo dos sacerdotes e dos filósofos, gregos principalmente, onde a sacralização valorizava os bens trocados nos templos sem preço na etiqueta e onde o trabalho físico deveria ser executado pelos escravos, "ferramenta animada" (Aristóteles). O trabalho passou depois a ser pago e se organizou um sistema de preços. Hoje os chamamos "custos operacionais", diretamente ligados à produção. As solicitações energéticas provocaram uma revolução industrial que rapidamente, por causa dos investimentos, foi transformada em sistema capitalista, ou seja, o sistema que agrega aos custos a amortização do capital e/ou a provisão para reprodução do capital e se possível sua expansão. Os preços foram assim a soma das oferendas (sacrifício dos sacerdotes), mais o custo do trabalho, mais a amortização do capital ou renda, mais um lucro necessário à expansão do capital ou à acumulação do capital. O ar, a água, a lenha eram gratuitos. Com mágica igual, os capitalistas e os socialistas esconderam a participação da renda da natureza, considerando desde o início a energia e a renda diferenciada da natureza um bem gratuito: petróleo e carvão para alguns, água, eletricidade para outros.

Nessas condições, tudo se simplificou, ficamos reduzidos ao maniqueísmo fácil: o Capital e o Trabalho, dois vetores com escalas diferentes em conflito, permitindo soluções através de guerras a dois, ou mundiais, colonização de países, enfim, a luta de classes, seja no âmbito regional, seja no mundial.

Quando as contradições ficaram evidentes para os dois lados, devido à neutralização do terceiro parceiro, esquecido, mas sempre presente (a natureza), os dois companheiros da luta de classes se confrontaram no Vietnã e chegaram ao "muro" nuclear. Não foi mais possível continuar, mesmo sobre bases novas, o conflito Capital-Trabalho, capitalismo-socialismo, depois do confronto armado. A arma nuclear não oferece possibilidade de projeções de estratégias para o day after.

A luta de classes, ou seja, a luta entre o capitalista e o trabalhador assalariado, é uma briga de um motorista e um passageiro a seu lado, dentro de um carro que anda a 100 km/h; nenhum dos dois consegue segurar o volante, por terem as mãos ocupadas na luta. Antigamente o carro andava a 1 ou 2 km/h, e de vez em quando um ou outro conseguia segurar com uma mão o volante e o outro aproveitava para ganhar espaço na luta. No momento, o capitalismo cansado tem as duas mãos no volante, devido à súbita transformação da URSS. Mas, agora, as coisas vão tão rapidamente que os passageiros do banco de trás, os infelizes povos do Terceiro Mundo, terão de gritar pedindo a consolidação do fim dessa briga e rezar, para que os dois antagonistas do banco dianteiro olhem em frente e dirijam o carro procurando a melhor estrada possível e a velocidade mais confortável. No banco da frente estão o Primeiro e o Segundo Mundos, no banco de trás o Terceiro Mundo.

A paz depois do fim da guerra do Vietnã provocou um choque nos EUA e na URSS, e o desequilíbrio bem conhecido das economias de mercado permitiu e agilizou um aumento do preço do petróleo, energia da guerra clássica, a qual não tem mais sua importância estratégica nos conflitos armados. Os únicos preços administrados nos EUA, antes de 1973, foram os preços do gás natural e do petróleo na jazida.
  

A ECOLOGIA DESCOBERTA A PARTIR DOS CHOQUES DO PREÇO DO PETRÓLEO
A introdução do fator energético pelos "choques do petróleo" entre os sistemas, Capital e Trabalho, como uma cunha, abre o diálogo para definir um equilíbrio novo com três parâmetros: Capital, Trabalho e Energia.


  

Essa necessidade de considerar a energia, já pressentida antes do fim da guerra do Vietnã, fundamentou muitas pesquisas e trabalhos acadêmicos para definir as funções de substituição Capital-Trabalho-Energia, ou as funções KLE, quando se verificou que a elasticidades energia/PIB não tem valor prospectivo, mas só histórico.

Antes de 1973, a elasticidade energia/PIB se encontrava estável. Depois de 1973, os especialistas, pesquisadores em econometria e inventores de modelos tentaram colocar em equação a participação da energia nas variações do valor do Capital e do Trabalho e, às vezes, das matérias-primas.

A crise da energia, na verdade uma crise da integração do custo das energias fósseis na economia mundial a partir de 1973, teve como conseqüência a volta aos princípios básicos da economia política e a consideração dos limites do aproveitamento das energias fósseis e da gratuidade dos produtos da natureza.

A questão dos impactos sociais, ambientais e industriais dos energéticos é muitas vezes ligada aos problemas macroeconômicos como os preços relativos das energias, a natureza dos recursos financeiros utilizados, o balanço de pagamentos, a taxa de crescimento econômico.

O triângulo pode ser completado pela definição dos três vértices, onde no vértice correspondente a capital e trabalho reduzidos, temos o índio: o homem totalmente integrado ao meio ambiente, sem Capital e sem Trabalho assalariado. No vértice correspondente a Capital e Ecossenso reduzidos, temos o escravo: o homem totalmente utilizado no trabalho, sem capital e sem integração ambiental. No vértice com trabalho e Ecossenso nulos, encontramos o banqueiro, o cientista, o mestre, conversando com computadores, para especular, calcular e capitalizar sem nenhum lazer no quadro natural, nem trabalho assalariado.

Percebe-se de imediato que nenhuma das políticas econômicas no Brasil até hoje imaginadas surtiram efeito, porque o ponto representativo da posição estrutural deveria ser lançado em três direções, no mínimo, e não somente em uma. Não existe política somente econômica feita de capital, moeda, juros, impostos, tributos industriais e tecnologia sem uma política social: salário, habitação, saúde, alimentação, lazer, e sem política ecológica - ou, para ser claro: os planos econômicos nacionais, incluindo os de Collor, são naturalmente ineficazes porque a valorização do trabalho e da natureza (energia, matérias-primas, poluição) não recebeu atenção dos economistas, que têm a visão única do vetor "Capital": preço, moeda, inflação, subsídios, impostos. O mínimo que deveria ser feito é a recuperação da tarifa de energia e do salário mínimo mesmo que por um tempo poderá ter elevação da inflação por efeito psicológico.

Não é possível gerir um país com choques. É óbvio que toda mudança de posição do ponto representativo no triângulo KLE precisa de tempo, de informação, de educação e de proteção.

D.T. Spreng examinou as substituições entre o tempo, a energia e a informação porque, mesmo quando a energia é cara ou escassa, a conservação não é sempre possível. O tempo, outra parte da tríade, é também limitado e com valorização maior. Na tríade de Spreng, os três elementos são derivados do Capital (informação), do Trabalho (tempo de lazer) e do Ecossenso (energia), e, da mesma forma que na tríade-base, KLE, qualquer ação sobre um dos três tem reflexos sobre os outros, e só a tecnologia, e não o preço da energia, poderá mudar as relações tempo-consumo de energia. O subsídio da energia hidroelétrica (na União Soviética e no Brasil) e nuclear (nos EUA e na França) não conseguiu provocar mudança das relações na tríade tempo-energia-informação.

Podemos também compreender melhor a declaração do Ministro Lutzemberger, quando disse: "As pesquisas e os resultados das descobertas no domínio dos modelos não consideram que a ecologia, no nível do mundo em paz, é o sistema que governa todas essas políticas, teorias e tensões. O mundo em guerra não precisa analisar as conseqüências de estratégias econômicas, políticas, energéticas."

Do mesmo modo, Jorge Wilhem, assessor especial do Governador de São Paulo, Antonio Fleury, explicou recentemente no Rio que "o desenvolvimento tem três pés: o crescimento, a justiça social e a preservação do meio ambiente. O desenvolvimento tem que ser sustentado". Encontramos de novo os três vetores: o crescimento, um parâmetro do Capital; a justiça social, um fator do Trabalho; e a preservação do meio ambiente, um lado passivo da política ecológica.

Louis Von Planta, Presidente do Conselho da Ciba-Geigy, declarou: "A indústria, hoje em dia, entende que possui três grandes responsabilidades: com o meio ambiente, com os empregados e com os acionistas." Triangulação perfeita: ecologia, social, capital, mas se os sistemas capitalista e socialista chegaram a seu fim, é importante perguntar qual será o sistema transcendente depois da descoberta da tríade que inclui a tecnologia.

As três leis de Akai Morita relacionaram-se muito bem com a tríade:

 

1- criatividade de produto ou de serviço para ter um bom produto ou um bom serviço (Ecossenso: qualidade);

2- criatividade mercadológico para vender seu produto a alguém que tenha dinheiro querendo comprá-lo (capitalismo: renda do mercado);

3- criatividade da produção para produzir um bom produto (Trabalho).

A tríade parece a base do conceito ainda complexo do desenvolvimento sustentável. O Presidente Fernando Collor, querendo defini-lo, diz: "Uma das reflexões centrais de nosso tempo é a concepção, e a implementação, da idéia de desenvolvimento sustentável. De forma muito sintética e simplificada, poderíamos defini-lo como um modelo cujos métodos e meios procuram balizar-se pelo equilíbrio entre o crescimento, a disponibilidade de recursos naturais e o bem-estar universal dos destinatários, presentes e futuros, dos frutos do progresso. Hoje, a sociedade industrial consome a natureza; devemos aprender a desfrutar da natureza, distinguindo claramente entre o manejo inteligente dos recursos naturais e sua depredação irracional."

O "crescimento" se traduz pela acumulação do PIB (capitalização), a "disponibilidade de recursos naturais" é a participação do Ecossenso, "bem-estar" e a condição dos trabalhadores.

A social-democracia, morta desde sua criação, foi uma tentativa de encontrar um compromisso entre as forças do capital e do trabalho, evitando a luta de classes; mas é fácil perceber que a social-democracia é simplesmente uma projeção conjectural do ponto de equilíbrio Capital-Trabalho-Ecossenso. O mundo chegou a um ponto histórico, no qual os sistemas não tiveram uma renovação dialética nem uma renovação política: o que representa hoje a democracia, filosofia da produção capitalista liberal, ou o comunismo, filosofia da igualdade do trabalhador na apropriação da mais-valia? O Ecossenso precisa de uma nova forma de organização transnacional devido às repercussões mundiais das políticas ecológicas nacionais. A tríade necessita das invenções de especialistas, integrando as questões econômica, social e ecológica no sentido de obter maior intervenção do cidadão no mundo, não para delegar poderes, via voto de representação, mas para participar do controle triplo: desenvolvimento, social e meio ambiente. A dificuldade maior é que o mundo é dominado pelo conceito da moeda e do valor de mercado, quando nem um nem outro são parâmetros comuns das três vertentes da tríade. A valorização do uso poderá ser uma aproximação do lado social, mas e os impactos ambientais? Os comunistas e outros representantes de sistemas sociais avançados imaginaram uma renda igual para todos os homens, mas infelizmente a competitividade não permitiu a esses sistemas resistir aos impactos da acumulação de riquezas dos setores capitalistas. Resta, finalmente, o conceito de custos da educação ambiental, da proteção preventiva, da fiscalização dos prejuízos, da racionalização do consumo.


CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, A MAIS AVANÇADA
O Brasil beneficia-se de ótimas condições na "linha de partida do novo modelo". Nós temos as matérias-primas, o quadro geográfico paradisíaco, as florestas e os rios ainda conservados, um povo otimista, alegre e espiritualista. Temos, infelizmente, economistas demais, ainda exercendo o poder nos pontos estratégicos, o que significa a pior situação para o país rico.

Quando me são feitas perguntas por estrangeiros sobre o Brasil, tenho sempre uma dificuldade: por onde começar? Estou convencido que o Brasil não é um país como outro qualquer, mas uma nação "sacerdote", protegida, cheia de características originais e quase pronta a assumir sua vocação. Não existe dívida quando o olhamos, vibramos, choramos, sentimos os sinais permanentes da natureza e do povo deste grande país e ainda mais do "inconsciente coletivo", como muitos gostam de analisar.

O Brasil é, felizmente, um país do Terceiro Mundo: não no sentido de miséria e de atraso, mas no sentido de riqueza explorada, da simbiose com a natureza, da integração espiritual com a vida. É da terceira vertente, não capitalista, não socialista, mas do Ecossenso. É o maior país e o mais avançado equilíbrio entre as três vertentes, mais perto da civilização em gestação.

O Hino Nacional, diferentemente de muitas outras marchas de guerra, é representativo da mente nacional:

  "Gigante pela própria natureza...
Ao som do mar e à luz do céu profundo...
Teus risonhos lindos campos têm mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida, no teu seio, mais amores."

Suas cores são o azul (céu), amarelo (riqueza natural), verde (as florestas), branco (a paz). Até a bandeira lembra o céu do Rio de Janeiro no dia da proclamação da República.

O Brasil sem história de guerra e sem revoluções é o modelo do país da paz. Outros continentes menores não experimentaram a revolução ou a guerra interna, mas participaram dos conflitos mundiais. A participação do Brasil na guerra de 1939-45 foi gloriosa relativamente ao contingente engajado, com seu patriotismo compartilhado, mas as comunidades felizmente foram preservadas dos massacres de todos os lados que continuam ainda na Europa e no Oriente Médio, e que não poderão cessar se não aprendem a paz do Brasil.

É sempre difícil para um brasileiro nato entender por que o Brasil é o único país do mundo que pode experimentar, já e certamente amanhã, uma civilização e um novo modelo de governo.

A crise é mundial e os últimos acontecimentos nos países com experiência capitalista de Estado e o próximo colapso do sistema de poupança e bancário nos EUA, depois de uma recessão administrada para conter o déficit permanente da balança comercial, demonstram que nem o Primeiro nem o Segundo Mundo oferecem o modelo.

O fim da história é vista pelo economista Francis Fukuyama como a chegada do ponto absoluto da democracia liberal e de todos os modelos sociais e políticos - tribais, teocracia, monarquia, autocracia, democracia política, maxista, comunista, autoritarista, farsistas, etc.

Sua democracia liberal é baseada sobre o fim do protecionismo, a abertura do mercado mundial; solução já proposta pelos economistas da escola de Adam Smith, como Milton Friedman, sem êxito.

Francis Fukuyama resolve sua tríade - política, social, econômica - dando o primado da política sobre o sócio-econômico: "Não há democracia (sistema do social) sem democratas", mas a política é somente uma parte do Ecossenso, e a simplificação de Francis Fukuyama é de fato uma contradição, porque a política é um modelo depois de ter agregado o social. O fim da história sim, e o fim da história a dois. Devido à poluição criada pelos dois - capitalismo/socialismo - poluição que integra a poluição da miséria e da colonização do mundo, os dois foram obrigados a valorizar a renda da natureza e provocar a emergência do Terceiro Mundo - representação carismática e mística da natureza e do Ecossenso, ou seja, da capacidade de apreciar o hábitat, a natureza.

Se o Terceiro Mundo tem altas taxas de doenças nutricionais e infecciosas, o Primeiro Mundo experimenta doenças ditas "de civilização" como a depressão, a esquizofrenia, o suicídio, o alcoolismo, o vício em drogas. O Terceiro Mundo, fonte de riquezas naturais e culturais, deverá conservar suas potencialidades e fortalecê-las. O Brasil é o melhor exemplo do avanço da civilização do Terceiro Mundo, no contexto da paz e dos ecossistemas.

País de forte miscigenação, não entrou em conflito direto com nenhum país em conflito, em posição geográfica e geopolítica excelente no hemisfério Sul, o Brasil tem todos os potenciais disponíveis para ser o maior protagonista da valorização da natureza. De todos os países que participaram da última guerra mundial, o Brasil é o único que conservou suas bases abertas de demanda energética e de desenvolvimento industrial de ponta.

As políticas energéticas dos EUA, da Inglaterra e da França estão comprometidas com o sistema de controle dos cartéis (petróleo e nuclear) e não têm a flexibilidade da matriz brasileira.

Quando o mito da auto-suficiência acabar para fortalecer a capacidade do monopólio da União e agilizar as importações de petróleo, gás natural, carvão da América do Sul e da África, o Brasil será um parceiro pragmático eficiente no quadro da paz. Outros países do Primeiro e do Segundo Mundo são marcados pela guerra, pela competitividade, contrários à cooperação, auto-afirmativos, sem originalidade e sem questionamento quanto à "regra", porque a "regra" é imprescindível durante a guerra.

O povo brasileiro associou as potencialidades do africano (ou Yin para os chineses) com as do branco europeu, que desenvolvem exageradamente o lado Yang. De um lado, o brasileiro tem a sensibilidade e a intuição dos negros vindos da África e que construíram as bases do Brasil e, de outro, a lógica e a vontade dos europeus. O Brasil já está no caminho do equilíbrio. Aristóteles e Leopold Senghor, quase 2000 anos depois, tentaram imaginar uma civilização de homens integrando a inteligência intuitiva e a discursiva, a sensibilidade e a vontade. Além disso, o índio é um verdadeiro coringa na reestruturação das civilizações porque representa um testemunho vivo ecossensitivo da humanidade. É só observar a deflagração da URSS e a tentativa de unificação européia para ver que não passam de imensas Torres de Babel.

Muito antes da velha Europa, a Europa Antártica já existe, do Chuí ao Oiapoque: temos uma moeda, uma língua, uma cultura nacional. Talvez a segunda melhor língua para unificação da Europa seja também o português, porque temos aqui a experiência e a demonstração da capacidade, para todos os estrangeiros moradores no Brasil de comunicar-se em português, e sempre em menos de uma geração.

Muitos livros não seriam suficientes para mostrar a posição excepcional do Brasil hoje.


BRASILEIRO, HOMEM DE MEDIAÇÃO
Através da história, a coesão dos sistemas civilizatórios tem repousado na figura de um homem de mediação que assegurou no seu tempo a circulação de bens, saber, valores ou mesmo simplesmente a informação. Assim foram, em seu momento, o mercador fenício na Antiguidade do Mediterrâneo, ou os sacerdotes egípcios. Sejam novos segmentos sociais ou étnicos, as grandes tensões resultantes de desigualdades sempre foram superadas no sentido de estender o desenvolvimento. O encontro ou aparecimento de algum agente em condições de desempenhar esta função de intermediação, entre pólos definidos por uma descontinuidade quantitativa, sempre ocorreu, permitindo aos povos o acesso a novos processos, valores e níveis de bem-estar.

A tensão Norte-Sul, que caracteriza o traço de maior dramaticidade neste final da era moderna, poderá encontrar um sujeito na medida das necessidades que se impõem para exercer uma função intermediadora que favoreça a superação do impasse atual. Um novo ordenamento se tornará possível, mas através de que instrumentos agenciadores que viabilizem contornar os bloqueios à evolução do Terceiro Mundo? No limiar da agudização generalizada de conflitos e desestabilização de países mais pobres e frágeis, no cruzamento de tensões de origens econômicas, culturais, étnicas e estratégicas, qual é o perfil do homem de intermediação para esta nova civilização planetária? Certamente será um elemento que integra hibridamente traços qualitativos de diferentes aspectos de cada pólo em oposição; uma espécie de meio-caminho do que cada um (Norte e o Sul) terá de percorrer para se chegar a um novo equilíbrio nas relações. Isto posto, na multiplicidade de aspectos que estabelecem as diferenças originárias das tensões, como variáveis econômicas, culturais, técnicas, etc., este homem de intermediação terá inevitavelmente duas qualidades antitéticas: portará em seu interior os elementos de conflito que permeiam os dois pólos de demanda de intermediação, com um grau de solução interna suficiente para irradiar ondas de coerência no campo caótico das relações dominantes entre Norte e Sul da economia mundial.

No contexto estabelecido na economia mundial após 1965, com a consolidação da reconstrução européia e japonesa, um grupo de países do Sul, induzidos por um processo combinado de alocação de capitais e tecnologias, e ainda, um crescimento sustentado do comércio internacional, alcançou uma acumulação do capital suficiente para serem considerados países de renda média elevada. O grupo principal destes países está no extremo Oriente e caracterizam-se por terem optado pela integração intensiva na divisão internacional do trabalho, em busca de mercados externos nos países do Norte, através das vantagens comparativas oferecidas pela mão-de-obra barata e disciplinada.

O Brasil, no contexto da América do Sul, alcançou resultados menos intensos de integração; o suficiente, porém para alcançar um processo de acumulação interna que modernizou social e tecnologicamente o país. A massa continental e humana foi base para uma expansão absoluta inédita, onde as disfunções geradoras de tensões foram acompanhadas da formação de um sistema industrial localizado em grande parte em São Paulo, sem que, no entanto, os efeitos deste processo deixassem de homogeneizar o crescimento econômico na região Sudeste e de estender a modernização ao Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

As bases deste impulso na produção de riquezas, terminou por desbloquear a evolução institucional do regime anterior no sentido de um sistema aberto, mais próximo do funcionamento dos sistemas políticos das sociedades industriais.

A diversidade étnica e cultural do país, com aproximadamente 70% de sua população de origem africana, e a importância das colônias Árabe e japonesa conferem uma abertura de continuidades na direção de novos vínculos de integração bastante favoráveis, considerando se os resultados alcançados no quadro da tradicional dominância dos laços com o Norte atlântico. Infenso ao ônus de heranças de hegemonismo de outros países, com disponibilidade de tecnologia para intercâmbio, o país conta com um adequado equilíbrio entre sua natureza típica de Terceiro Mundo na sua acepção civilizatória e um sistema institucional característico de sua sociedade civil e estado que evolui no sentido próximo da experiência da Europa latina.

Na origem das tensões Norte-Sul está a natureza da divisão internacional do trabalho, onde os países subdesenvolvidos se especializam em produtos de base com baixo valor agregado. As estruturas de custos definidas por salários baixos, associados a estruturas oligopólicas de comercialização e controle de tecnologia são instrumento de drenagem de recursos e de ampliação da desigualdade entre o Norte e o Sul.

Acima de tudo, este confronto é o mais importante fato político e econômico mundial. A importância e a gravidade da confrontação Leste-Oeste não lhe retira o caráter balizado e estável na repartição da hegemonia exercida pelas superpotências.

O já tradicional esforço de países e organizações do Norte de desenvolver o diálogo entre os industrializados e o grupo dos 77, com o passar dos anos, foi-se revelando uma seqüência de táticas para protelar negociações mais s‚rias.

Após 1973, com a performance alcançada pela OPEP no mercado do petróleo, muitos países acreditaram na possibilidade de reversão das tendências estruturais da economia mundial de aprofundamento do fosso. Foi preciso que a economia mundial vivesse todas as seqüelas que se seguiriam ao setembro negro de 1982, quando o México declarou o default de sua dívida externa, para que a natureza real das relações Norte-Sul aflorassem com sua gravidade aos olhos de todos. A mão firme do Fundo Monetário Internacional, martelando sobre frágeis economias africanas abatidas pelas calamidades da seca e da fome, calou fundo na consciência moral da humanidade.

Em silêncio, parece que os países do Sul vão-se perfilando diante do realismo de contar com suas próprias forças para associar-se entre si e negociar seriamente e competentemente onde lhes seja possível conseguir resultados.


A TRIANGULAÇÃO COM AJUDA DO BRASIL
O Brasil está chamado a desempenhar um papel de importância neste novo contexto pelas razões já colocadas, mas que se resumem em ser um parceiro que, por já ter recebido lições na sua formação histórica, está em condições de exercer a solidariedade política dentro de um compromisso de pragmatismo comercial e de intercâmbio cultural e tecnológico.

A experiência brasileira de intercâmbio tecnológico, tanto nas operações de seleção, compra e adaptação, como nas áreas desenvolvidas autonomamente, permite oferecer, nas trocas com países menos desenvolvidos, uma transparência de m‚todos de controle e domínio de processos de fabricação que inaugurará uma nova qualidade no relacionamento Sul-Sul. Os países com um ainda escasso grau de auto-aprovisionamento encontrará no Brasil uma experiência útil de construção da independência econômica através de um processo de substituição de importações e da incorporação de tecnologias estrangeiras. A amplitude da gama de produtos de ponta nas exportações brasileiras permite uma adaptabilidade aos mais parecidos casos de perfil de demanda dos parceiros para a integração. A economia brasileira está preparada para apoiar qualquer país do Terceiro Mundo, no sentido de promover sua industrialização e seu crescimento.

Mesmo levando em conta a maturidade que, nas condições atuais da economia mundial, as relações entre países do Sul alcançaram para produzir campo de força autônomo, é necessário estar atento para um componente residual, que deverá jogar um papel decisivo ainda por algum tempo, que é a composição de ações triangulares para viabilizar certos tipos de operação.

Devido ao peso histórico da dependência que caracterizou o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo, e ainda mais devido à crescente internacionalização das economias no pós-guerra comandadas pelas grandes empresas transnacionais, via de regra prevalece um entrelaçamento de empresas filiais da matriz do Norte, operando no Sul. É este um traço essencial do neocolonialismo de nossos dias, mas que tende a ser reduzido pela força própria do processo social de cada país que vai impondo às filiais, mesmo as mais consolidadas pelos bons resultados de exploração, adaptar-se e aculturar-se às condições e regras definidas pelo Estado e pela regulamentação.

As operações de investimentos ou cooperação comercial entre dois países do Sul não podem menosprezar a influência dos mercados do Norte nas suas alternativas e estratégias comerciais.

A viabilização de projetos, principalmente os macros, em geral requerem arranjos financeiros e tecnológicos que para se viabilizarem, quer seja na escolha dos insumos, quer seja na destinação do produto a ser comercializado, indicarão melhores resultados com a preservação de um certo grau de participação de empresas ou agências de países industrializados. Isto deve ser empreendido evidentemente no quadro de relação entre países do Sul, suficientemente definidos para deter o controle do processo de maneira aberta e equânime, para não permitir desigualdade de benefícios que possam prejudicar a confiança mútua.

O poder relativo dos países do Norte nas mais variadas esferas de atividade torna vulneráveis as pontes estendidas entre países do Sul, por isso a preservação da igualdade de todos os parceiros para desenvolver relações com o Norte.

O Brasil em especial deve estar atento a todos esses aspectos nas suas relações com parceiros do Sul, porque tendo um papel importante a desempenhar, depende dessas relações, para ter sucesso nos níveis de desenvolvimento técnico e institucional alcançados internamente no país. Esses resultados, parcialmente, estão associados ao desempenho de firmas multinacionais desejosas de tirar partido do vasto potencial de mercado que se vincula ao desenvolvimento de pactos Sul-Sul. Também empresas estatais, detentoras das reservas consideradas de recursos em setores de base pela sua capacidade de planejamento e sustentação operacional, deverão jogar um papel decisivo.

Os caminhos da cooperação Sul-Sul são vários, permitindo bifurcações inúmeras, o que não invalida a existência de opções que devem ser evitadas para não conduzirem à resistência.

Mas outros caracteres já estão presentes no Brasil, como a experiência diária de milhares de brasileiros com o lado espiritual, até as grandes manifestações nacionais como a festa de Iemanjá (a deusa do mar) e do carnaval, que nada tem a ver com os carnavais europeus ligados à quaresma, mas a uma liturgia da felicidade, da riqueza do homem, da sensibilidade.

O Brasil é o país "sofisto" por excelência, onde o senso é o critério da verdade, o prazer é o critério do bem e a força é o critério do direito. Pelo contrário, o Ocidente ficou ainda no silogismo clássico de duas premissas e uma conclusão.


(*) Elasticidade é um conceito da relação entre dois crescimentos relativos, por exemplo, energia e produto interno bruto. Se a energia cresce de 5% quando o PIB registrou um aumento de 2,5%, a elasticidade E/PIB é de 2,0.
(**) Comissão Governamental de Reexame da Matriz Energética Nacional.