5- NOVA DIALÉTICA DE DESENVOLVIMENTO

  

O desenvolvimento é "traçado" pelo Capital e a modificação de posição do Capital ou sua acumulação não deveriam permitir efeitos negativos sobre o meio ambiente. O uso de tecnologias que utilizem menos energia e a adoção de formas alternativas de produção e consumo, para reduzir a pressão sobre os recursos naturais, poderão desenvolver-se.

Como podemos ver no caso da energia, a dificuldade do problema ecológico vem do seguinte dilema:

 

1- Se os preços das energias fósseis são baixos, o consumo cresce e não há incentivo para a racionalização energética, e assim não se garante a proteção do meio ambiente. A demanda alcançará rapidamente a oferta, e os produtores de energia ficarão sem recursos para sustentar o crescimento da demanda até um choque de preços ou uma onda recessiva.

2- Se as energias fósseis são caras, o consumo ficará limitado e o equilíbrio entre demanda e oferta será mantido sem choque, sem recessão e sem guerra, quando os preços não ultrapassarem um nível sustentável. Os países pobres não terão acesso a essas energias e continuarão com as energias renováveis caras em capital intensivo, ou serão obrigados a destruir as florestas, se ainda houver algumas árvores de pé.

O orçamento para produção de energia renovável nos países do Terceiro Mundo é de 1 trilhão de dólares, enquanto a capacidade do Banco Mundial é de apenas 200 bilhões, sem mencionar o fato de que todos os países estão altamente endividados.

É claro que existe uma solução: o controle internacional da distribuição das energias fósseis e a arrecadação de uma taxa de compensação entre os países para sustentar os preços mantidos propositadamente altos das energias fósseis e das matérias-primas com reservas limitadas, e os royalties sobre patentes e direitos de propriedade.

Nos 20 últimos anos, a consideração dos custos "ecológicos" provocou um aumento dos custos de produção - 1/3 nos derivados de petróleo, 50% na eletricidade. É melhor antecipar e cobrar uma taxa compulsória.

Compartilhar as energias fósseis e matérias-primas e ajudar o desenvolvimento das energias renováveis e da produção de alimentos são políticas utópicas, mas como foi previsto, consistem no único caminho; além disso, a dialética ecologista deverá demonstrar que a sustentação da vida depende da conscientização sobre a importância dos ecossistemas. Se os norte-americanos conseguissem reduzir o consumo relativo de energia à metade, os preços do petróleo e do gás deveriam cair e permitir a formação de recursos para a reconstrução dos ecossistemas: luta contra a poluição, reflorestamento, desenvolvimento tecnológico, reestruturação dos transportes e das comunicações. Uma função do controle internacional seria facilitar a conversão do sistema de transporte rodoviário em um sistema de transporte ferroviário de massa nas grandes metrópoles. Da mesma maneira, deverão se reduzir os transportes de pessoas pela utilização progressiva da teleconferência ou da videoconferência, quando as salas organizadas e os sistemas de comunicações o permitirem.

Mas ecologia não é só a valorização da energia, de matérias-primas e a proteção do meio ambiente. Ecologia é a ciência do quadro da vida em sociedade, incluindo as expressões culturais, o lazer, as manifestações recreativas. O Ministro José Lutzemberger chamou a atenção sobre esses outros componentes da ecologia: "É urgente uma ampla reformulação do pensamento econômico, que atualmente deixa de lado a felicidade e a alegria porque são coisas que não são medidas em dólares."
  

O EFEITO ESTUFA E O LOBBY NUCLEAR
Um dos mais recentes problemas do planeta é o efeito estufa, produzido pela queima das florestas tropicais e dos combustíveis fósseis.

Nossa biosfera já conhece o efeito estufa desde a origem da vida na Terra. Foi a produção do oxigênio no mar, depois da aparição da água, da chuva e dos mares, que permitiu a vida submarina, a vida na Terra e a chegada dos animais terrestres, por evolução dos animais marinhos. O efeito estufa regula a temperatura média na Terra, e o teor do CO2 pode ter influência sobre o equilíbrio das trocas de calor, isto é, poderá ter influência, se todos os outros fenômenos permanecerem constantes. Aqui surge uma primeira dívida. A estação soviética Vostok, na Antártica, fez medições que mostram que a relação entre CO2 e a temperatura ao longo de 16 mil anos teve muitas variações, no passado, o que não permite concluir sobre a influência significativa do teor de CO2 na atmosfera, porque a atividade solar ou a variação da órbita da Terra teve efeitos muito maiores. Historicamente, seria a preocupação inversa que deveríamos ter: a queda da temperatura provável nos próximos séculos seria mais desastrosa que o aumento da temperatura média, se este ocorrer!

O aumento do teor de metano em decorrência das atividades agrícolas e pecuárias, ligadas à demografia, causa mais efeitos que o CO2 da combustão. No balanço de carbono, em gigatoneladas(*) por ano, na atmosfera, a combustão de energia fóssil é de + 5, a respiração dos solos de + 25 e o efeito da vida animal por assimilação, - 25. Comparativamente, os oceanos dissolvem 100 GT. Os países industrializados capitalistas e socialistas são os únicos responsáveis pela emissão excessiva não-controlada de CO2.(**) Os países subdesenvolvidos produzem 10 vezes menos, e suas emissões são incontroláveis, naturais; qualquer que seja a análise objetiva feita pelos especialistas, as conclusões são as mesmas: os cálculos e previsões indicam que a variação da órbita da Terra e a atividade solar terão mais impacto sobre o nível da temperatura média do que a combustão de energia fóssil, principalmente o carvão. O controle das emissões dos processos industriais dos países avançados é a ação mais urgente a desenvolver. É necessário racionalizar aí o uso das energias e pesquisar para reduzir o conteúdo energético na produção. Devemos, enfim, reduzir as queimas nas florestas para fins produtivistas.

Nesse contexto, entende-se por que ocorrem tantas confusões envolvendo o efeito estufa.

Em referência à tríade, é óbvio que qualquer ação social ou capitalista deverá ter efeito sobre a natureza, e na luta pelo controle das tecnologias energéticas existe uma tentativa de querer dominar a energia nuclear, como no passado era o petróleo, para ter o poder geopolítico. A resposta oferecida pelos detentores dos ciclos nucleares é evidentemente a eletrificação, mais uma vez, via nuclear. Além do mais, essa política teria efeito secundário de grande importância: a redução da demanda de petróleo e, conseqüentemente, a redução de seu preço de mercado. De novo, observamos o controle dos países industrializados para valorizar excessivamente a tecnologia e o capital, desvalorizando os produtos naturais para não pagar a renda diferencial. Mas os produtos petrolíferos baratos poderiam oferecer uma solução para o desenvolvimento dos países atrasados, que evitariam, assim, contratar instalações de centrais nucleares. Por isso, para os países industrializados é imprescindível lançar campanhas contra as emissões de CO2, embora continuando a pesquisar novas tecnologias para aproveitar prioritariamente as energias fósseis.

Se o efeito estufa deve ser monitorado e contido, se devemos imperativamente parar de queimar as florestas naturais, se precisamos mudar os processos de conservação e racionalização do uso das matérias-primas e energias, não devemos acreditar na demagogia vergonhosa dos poderosos do mundo, que querem encontrar novas formas de domínio e de imperialismo barato, ou de colonialismo tecnológico, graças s teses sobre os riscos ecológicos. Em particular, isto pode ser comprovado através da insistência dos países já detentores de armas nucleares em impor ao Brasil a adesão ao tratado de não-desenvolvimento de programas nucleares com fins militares, impossibilitando assim qualquer programa nuclear civil.
 

A PROTEÇÃO A EXISTÊNCIA DO HOMEM
A Declaração de Estocolmo denunciou a degradação das condições de vida: "Nos países em desenvolvimento, a maioria dos problemas ambientais é causada pelo subdesenvolvimento. Milhões continuam a viver abaixo dos níveis mínimos necessários para a existência humana condigna, privados de comida, vestimentas, abrigo, educação e saúde."

A miséria no campo, com a destruição resultante da natureza, é a causa da desertificação e das mudanças para os centros urbanos. A atração capitalista das cidades completa o quadro, com o emprego - um subemprego mal remunerado - uma ilusão de moradia, em geral favelas, um atendimento social deficiente e um submundo de doenças, de drogas e de exploração por outros homens, falta de higiene e a promiscuidade destruindo as famílias.

Uma grande hipocrisia é formada pela ajuda propiciada aos países subdesenvolvidos sob a forma de donativos, de assistência filantrópica e de integração dos sindicatos, ou seja, de todos os sistemas capitalistas, religiosos e trabalhista. O fim das altas taxas no serviço da dívida com juros excessivos (23%) e o pagamento a um preço constante dos produtos exportados teriam suficiente volume para resolver todos os problemas de miséria interna.

A visão capitalista quer ser a valorização da existência humana. Diversas teorias são propostas para avaliar o custo de oportunidade da vida, porque sempre o investimento e os custos são os determinantes das soluções escolhidas. Da mesma maneira são feitas as avaliações de bens ambientais e, dependendo do "preço" do bem natural e da taxa de retorno, a solução terá efeitos favoráveis dentro de 10 ou 40 anos, a vida humana seria salva agora ou somente dentro de 20 anos, dependendo dos critérios adotados. Esta é a visão moderna de estratégia militar, que sacrifica soldados no combate para resguardar a vida de outros no futuro.

Os problemas relativos ao meio ambiente são aqui citados como exemplos da demagogia e da exploração dos fatos ecológicos por parte de conhecidas personalidades locais e internacionais. Só para ilustrar a possibilidade de resolver rapidamente questões fundamentais para nosso país e nossa região, queremos apresentar alguns caminhos que poderão ser percorridos com resultados visíveis. Essas soluções poderão também ser desenvolvidas no mundo.
 

TAXA SOBRE ENERGIA E MATÉRIA-PRIMA. INVESTIMENTOS PARA A CONSERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE E CRIAÇÃO DE EMPREGOS
A primeira medida a tomar é a taxação da energia consumida, em valor absoluto considerando o fator de carga. Hoje se taxa a tecnologia (IPI), e não a energia. É possível também destinar o resultado da tributação, para redução dos juros sobre investimentos racionais.

A taxação deverá ser feita progressivamente, para provocar sobre os preços o mesmo efeito conseguido pela redução dos juros sobre os investimentos voltados para a conservação da energia e proteção ambiental, e criação de emprego de alta tecnologia: motivação real da educação.

Geralmente se invertem as políticas. Não conseguiremos a educação apenas com recursos para organizar os super-CIACs e educandos formados com empregos bem remunerados. A utopia nacional resolve tudo com a educação. A educação é conseqüência de uma estrutura de motivação.

Atingir essa meta é fácil e rápido, porque o custo da energia representa 1 a 3% dos preços da grande maioria dos produtos, enquanto os juros chegam a representar 15%. Assim, é imperativo duplicar as tarifas de energia (efeito de + 3% sobre os preços médios, no máximo) e compensar pela redução de 1/5 dos juros atuais reais (de 20 para 16%). Da mesma forma, é imprescindível aumentar os salários de base e compensar pela redução dos juros. A influência dos salários de base tem uma participação equivalente a metade dos juros. Assim podemos duplicar também os salários de base.

Nos transportes rodoviários, o custo da energia chega a ser de 10% do preço das tarifas. Nesse caso, e em outros setores específicos onde a energia é um insumo importante, deverão ser concedidos juros mais baixos ou até subsidiados por uma arrecadação suplementar sobre a energia, para permitir a renovação da frota e a adoção de veículos com menor consumo energético e baixo impacto ambiental, mas nunca subsidiar ou reduzir a tributação da energia.

A adoção dessa estratégia nos levará no Brasil a uma primeira etapa tecnológica, que se baseará, no caso do transporte, nos trens rápidos que utilizariam tecnologia de ponta, como motores turbinados a gás utilizando álcool hidratado; as conseqüências desse programa são bem conhecidas: redução dos custos de transporte, redução da poluição, descentralização urbana e criação de empregos ligados à produção de itens de alta tecnologia.

A progressividade da aplicação da estratégia permitirá a conversão de atividades ligadas a automóvel para a construção de ferrovias e unidades de trem.

A implantação de sistemas de cogeração agora possíveis nas indústrias elevará os rendimentos térmicos em até 90%, em vez dos atuais 32%, com uma economia significativa de despesas de investimentos em obras que exigem longo tempo de maturação e de retorno, e com uma redução dos impactos ambientais. A tarifa de energia elevada tem como maior conseqüência uma revolução geopolítica, porque permitirá, entre outros, a importação da energia "ecológica" da América do Sul: o gás natural da Bolívia, Argentina, Peru, Venezuela, Trinidad e Tobago, e da África: Argélia, Nigéria, Angola, Camarões. A compra desse gás permitiria uma integração equilibrada e justa de todos os países de culturas próximas. Portanto, o conceito ecológico terá uma aplicação prática imediata na medida em que a integração favorecerá uma troca de tecnologia e capacitação industrial compatível com o crescimento dos países do Atlântico Sul. O princípio que deveria ser agregado a essa integração seria a indexação dos preços do gás aos preços dos produtos e medidas de proteção ambiental.

Já para Ivan Illich, "O exercício da democracia é indissociável do uso de tecnologias de baixo consumo energético."Esse primeiro passo, representado pelo aumento da tarifa energética e pela redução dos juros para investimentos pré-ecológicos, deverá favorecer prioritariamente as tecnologias de baixo consumo energético. Em referência ao tripé Capital-Trabalho-Ecossenso, é importante conceber uma participação consciente da sociedade nas principais decisões que envolverão o ecossistema regional. Os sistemas políticos atuais, adaptados só à dualidade Capital-Trabalho, não são mais competentes para organizar o mundo novo. É só analisar a dialética dos partidos em todos os países para verificar a contradição entre os programas e a conduta dos governos. Parlamentarismo, presidencialismo e outras arquiteturas são edifícios antigos, que deverão ser "tombados", mas não têm qualquer aplicação hoje.

Montesquieu, com a tese da divisão dos poderes independentes - de novo uma tríade - Legislativo, Executivo e Judiciário, antecipou a forma de governar um país. Mas os políticos "fechados", "bitolados" em duas vias, Capital-Trabalho, organizaram-se em partidos para participar da famosa luta de classes de modos diversos, em função dos países e da época, mas sempre defendendo objetivos conflitantes da divisão da renda, capital privado ou do Estado, social, particular ou comunitário. Esquerda, direita, conservadores, trabalhistas, social-democratas, etc. são etiquetas sobre as mesmas motivações, até a aparição dos Partidos Verdes, isto é, dos partidos ecologistas, que não poderão coligar-se com um partido clássico.

Os três poderes de Montesquieu estavam adaptados à situação particular na França, onde o Executivo era exercido pelo rei dentro de um sistema de monarquia limitada. Montesquieu era contra a democracia, considerada a supremacia absoluta da maioria, e o conceito dos três poderes visa evitar essa democracia, que é um sistema diferente do liberalismo, e manter o poder do rei. Na realidade, dentro dessa luta entre monarquia, república e despotismo não foram identificados os três poderes reais, oriundos da tríade Capital (Senado) - Trabalho (Câmara dos Deputados) - Ecossenso (Casa da Terra).

Antes da Revolução Francesa, encontraram três grandes classes ou estados: clero, nobres e povo, junto com o rei. O clero, representante de Deus (na realidade, usurpação da natureza); a nobreza (aristocracia, entidades, poder econômico) e o povo eram governados pelo rei. Por isso Montesquieu, associando poderes e classes, propôs, como monarquista, a proteção do interesse do rei e a fusão dos outros dois poderes, nobreza e povo, no Legislativo (senado + câmara) e juízes e clero no Judiciário (civil e religioso)! Na Inglaterra, a mesma mágica! O governo do rei e o governo de gabinete (Executivo), com os pares e os comuns. Na Alemanha, no tempo do Império, o chanceler governa o Estado junto com o Bundesrat e o Reidstag. O poder usurpado foi o da natureza, via clero e rei. Isso explica as revoluções, as incompatibilidades no Legislativo, híbrido de um Senado eleito e da Câmara de Deputados, eleita; a corrupção dos poderes pelos agentes herdeiros da nobreza e da aristocracia, os golpes de Estado pelas forças militares, herdeiros da nobreza de armas, sem voz no governo.

O general de Gaulle queria dar às representações profissionais regionais uma participação nas decisões do Estado e transformar o Senado, mas a opinião francesa não estava madura, e depois do referendum negativo do 27 de abril de 1969 o general decidiu-se a pôr fim a seu reino.

A obrigatoriedade de um governo para conduzir o país provocou uma diferenciação da fórmula: presidencialismo (um homem designado governa com ministros); monarquia; parlamentarismo (o Senado e a Câmara dos Deputados elegem um primeiro-ministro).

Todas as idéias na base das propostas dos governos e das teorias políticas dos séculos XVII e XVIII foram oriundas dos princípios e dos direitos de liberdade, igualdade e propriedade (vida e bens materiais), que são leis da natureza.

Percebe-se que a forma moderna, ecossensitiva, deverá ultrapassar o ponto de vista de Montesquieu, reorganizar os três poderes e voltar ao verdadeiro equilíbrio, que não é a ditadura da maioria, mas a participação da sociedade nas decisões de âmbito regional, nacional ou internacional. A democracia representativa já está esgotada, e as crises se multiplicarão, porque os meios de comunicação (possuidores de poder absoluto) servirão à propaganda de um partido, que assim poder conquistar uma maioria e impor sua política à minoria.

Winston Churchill ressaltou: "Na verdade, diz-se que a democracia é a pior forma de governo, mas sobrevive sobre as demais formas que têm sido experimentadas de vez em quando", ou seja, ditaduras ou presidencialismo. Da mesma forma, o jornalista Wilson Figueiredo notou que "as formas democráticas de governo são assassinadas para evitar que se suicidem".

Adotar a democracia participativa significa voltar à concepção de soberania de Rousseau, onde o voto da maioria não é delegação de poderes do povo a um governo, mas ao Estado, que integra os três poderes: Senado, Deputados e Judiciário, ou seja, o Capital, o Trabalho e o Ecossenso (leis da natureza). O "governo", primeiro magistrado com seus secretários ou ministros, é um agente de coordenação, de comunicação e de informação entre os poderes constituídos. A democracia participativa é, então, o sistema de contrato social, onde a sociedade pode estabelecer ou revogar, a qualquer momento com seus deputados, seu agente: o governo "secretariado federal". Para isso, não precisaria de freqüência nem de feriado, somente um convite ao voto de um dos três poderes. O governo pode permanecer durante qualquer tempo. Os membros do Senado, da Câmara e da Casa da Terra deverão ser renovados periodicamente pelo voto da sociedade (Câmara) ou pela designação das entidades de classe (Senado, Casa da Terra). Não teremos deputados ou senadores "profissionais" pagos, mas somente representantes designados para votar leis. A Casa da Terra será voltada à defesa das leis da natureza que abrangem as leis do homem, e particularmente da proteção do meio ambiente, da igualdade e da liberdade, e não somente do direito do homem e da sociedade, como o poder Judiciário se limitou até hoje.
 

O MELHOR GOVERNO DE MAQUIAVEL
É muito interessante constatar que Maquiavel, na sua teoria dos governos, com a análise da evolução dos regimes políticos, já tinha chegado a uma visão que nossos políticos de hoje não perceberam. Para ele, todas as formas de governo, por serem organizações do homem, integram as mesmas desvantagens. Maquiavel, monarquista, contava três governos possíveis: monarquia, que se transforma em despotismo; aristocracia, que cai na oligarquia; e democracia, que finalmente chegará a um regime de licenciosidade. Não adianta organizar um país com um dos três "bons" modelos, porque rapidamente chegaremos a um dos três "ruins". A história comprova a teoria de Maquiavel. Sua solução é utilizar um modelo que some os três (a sinergia dos três poderes): o rei, representante de Deus ou da natureza, os grandes e o povo. Licurgo já organizava o Estado dessa maneira, e Esparta ficou em paz 800 anos. Poderia ser cômico, se não fosse o futuro de 150 milhões de brasileiros em jogo, ver ainda hoje a luta de cientistas políticos para definir a modificação da Constituição: monarquia ou república, presidencialismo ou parlamentarismo. Na realidade, existe uma substituição de questões: a questão principal é substituir o "Judiciário" pela "Casa da Terra", porque os três poderes são "o poder da natureza" (antigamente assumido pelo sacerdote e depois pelo rei, pela graça de Deus), o poder dos aristocratas ou dos "grandes", que é o Senado conservador e capitalista (entidades de classe, confederações de todos os setores), e o poder social ou do povo, constituído pela Câmara dos Deputados, representantes do povo.

É importante ressaltar que a ausência de poder constituído faz com que os "aristocratas", ou entidades de classes, com seu poder econômico, tenham como único meio de ação a corrupção dos políticos, detentores do poder. Assim, as forças "lobbísticas" organizam uma rede de controle externo do Congresso Nacional. A corrupção é a via normal e natural do acesso à votação das leis e, depois, ao poder empossado. Isso é válido para todas as "democracias" do mundo. Em todas as capitais, são milhares de escritórios de lobbistas para influenciar os políticos.

O único meio de reduzir a corrupção - que é o sistema similar e moderno da representação dos "aristocratas", como foi a representação do povo da Idade Média, pela nobreza - é substituir no Senado os eleitos pela representação direta das entidades econômicas, industriais, bancárias e comerciais.

No caso do Brasil, com a revisão do sistema político prevista pela Constituição, em 1993, teremos a responsabilidade de criar para o mundo uma primeira aplicação da revolução ecossensitiva, reorganizando o Estado dentro da Constituição a partir dos três poderes e de um chanceler, ou primeiro magistrado,(***) eleito pelos três poderes reunidos, não para decidir e mandar, mas para gerenciar o desenvolvimento pela coordenação dos poderes e das ações com a informação e para representar o Brasil. O Senado proporá leis, a Câmara votará e a "Casa da Terra" normalizará controlará a execução direta pelos agentes operadores. Um gabinete eleito pelos três poderes representará o Brasil e assumirá a Secretaria de Coordenação dos Três Poderes. Não haverá ministro (por não haver poder Executivo) e a pasta de cada secretaria será presidida por governadores em regime de "rodízio" anual.







Assim, voltamos a integrar todas as formas já imaginadas de governar um país. A paz permitirá a superação dos conflitos regionais e de fronteiras que as leis da natureza não conhecem. Devemos reescrever a "Declaração dos Direitos do Cidadão" e fazer a "Constituição do Planeta Terra".

Essa é também a conclusão da Politéia de Aristóteles, que preferiu a associação dos três modos de governo, monarquia, aristocracia e democracia, para a organização do poder do Estado. É interessante ressaltar também que o maniqueísmo, que é a divisão de tudo por dois lados - o espírito, dominado por Deus, "bem", e a matéria, dominada por Satã, "mal", foi a base do pensamento do Ocidente at‚ hoje, e mesmo de cristãos, como Santo Agostinho, maniqueísta, neoplatônico e batizado com 33 anos, para quem a história humana é simplificada pelas tensões entre a cidade de Deus e o inferno. Portanto, a grande tendência do cristianismo, como dos atanasianos, era afirmar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são absolutamente iguais e compostos da mesma substância. Assim, foi por isso talvez que o desenvolvimento do cristianismo foi tão rápido, fundamentando-se sobre o dogma da Trindade, ou mistério dos três poderes: Pai, "inteligência pura, sem desejo, sem vontade, sem sentimento", como dizia Aristóteles, antecipadamente, para caracterizar um Deus que acumula e capitaliza o conhecimento; o Filho, o corpo - agente do trabalho e necessariamente dependente da entropia até a morte, e o Espírito Santo, que é o ambiente das relações internas e completas entre Pai e Filho. Todas as tentativas maniqueístas da humanidade foram e serão sem êxito, como a divisão dos caracteres masculino e feminino, direita e esquerda, bem e mal, Capital e Trabalho.

A divisão do cérebro em hemisfério direito e hemisfério esquerdo, muito bem estudada pelos orientais e base do Tao, Yin e Yang, explica a diferença da visão dos ocidentais e orientais e a superioridade atual dos conceitos japoneses.
 

O MANIQUEÍSMO
O maior mal da humanidade (o pecado original de fato) é de qualificar o homem dos caracteres Yang e a mulher dos caracteres Yin e de chamar esses caracteres de masculino e feminino, deixando um equívoco quanto ao caráter dos sexos. Na realidade, temos os mesmos caráter que do Capital e do Trabalho ou das funções de demanda (Capital - Pai - cérebro esquerdo) e de oferta (Trabalho - Filho - cérebro direito). Devido a essa deformação básica, forma-se o homem ocidental predominante Yang, dito masculino, e mulher ocidental predominante Yin, dito feminino, quando deveria formar-se, como no Japão, homem e mulher com um equilíbrio de Yin e Yang. A raça negra procede principalmente as caracteres Yin e por essa razão a miscigenação no Brasil permitiu a muitos brasileiros os mesmos carateres que japoneses, gente capaz de realizar obras como os desfiles de carnaval somente graças a essa capacidade de dominar a lógica, a intuição, a vontade, a sensibilidade de uma civilização afro-européia. Enquanto Estado, o homem deverá agregar os três potenciais: conhecimento acumulado (experiência), o trabalho (produção de oferta), a faculdade de apreciar (juízo, sensos), como Capital, Trabalho e Ecossenso.

O mesmo pensamento maniqueísta já deformou a tecnologia mais revolucionária de nossos tempos, a informática, com a simplificação do bit dos computadores (0 ou 1) do sistema binário. O feed-back poderá ser positivo, negativo ou neutro, como a base da vida e da cibernética que são o tratamento das diferenças e do tempo. A imunologia(****) é possível porque se trata da defesa por antecipação, devido à interpretação do desvio e da intensidade.

O Yin é falta (negativo, terra). O Yang é o excesso (positivo, céu). O neutro, o equilíbrio, é o Teigi-quan.


(*) Gigatonelada (GT) equivalente a 1 bilhão de toneladas
(**) 20 T/ha Estados Unidos - 14 T/ha nos países industrializados -1 T/ha nos países em desenvolvimento
(***) O chanceler é a representação do poder moderador dos monarquistas, do poder régio, sem precisar, entretanto, da volta da monarquia “parlamentar”, que seria a contradição desejável pelos monarquistas.
(****) A imunologia é a ciência que utiliza desvio para provocar a formação preventiva de anticorpos que assumem a proteção